Previsão

Sou uma pessoa que acredita em quiromancia e todas as outras formas de prever o futuro. Ou melhor dizendo, era. Agora a minha vida e eu não nos importamos mais com isso.

O fato é que um dia como qualquer outro resolvi prever o meu futuro pela primeira vez. Agendei a consulta com uma quiromante nesse mesmo dia, peguei um ônibus quase quebrando, mas estava excitadíssimo demais para reclamar, queria saber o que aconteceria comigo dali para frente. Minha vida era estável, ganhava razoavelmente bem em um emprego que me agradava e tinha ótimos amigos. A vida perfeita que restava apenas uma coisa, alguém para compartilhar.

Logo que cheguei naquele lugar repleto de amuletos e velas, reparei na quiromante. Ela tinha cabelos morenos, olhos azuis, uma boca vermelha e usava um vestido dessa mesma cor que lhe caia muito bem. Belíssima. De cara ela olhou para mim e como se me conhecesse anunciou: "o que faz um homem de bem com a vida me visitar? Está solteiro, não é? "

Surpreendente. Nunca havíamos nos visto e ela já sabia da minha condição social.

"Olhe, meu garoto" , ela disse, "sente-se ali e dê a sua mão". Para alguém ansioso, um minuto dura horas, mas isso se torna ainda pior quando a sua ansiedade é somada a uma testa franzida e uma expressão indicando desânimo e reprovação.

"O que foi? Algo de errado com o meu futuro?", obviamente estava aflito.

"Um futuro nunca está errado, ele só pode... desagradar." Nesse momento, a sedutora quiromante se levantou, pegou um creme com uma textura e cor das quais nunca havia visto antes, passou em suas mãos e voltou a sentar na minha frente. "Isso evita que suas energias passem para mim"

"Diga-me logo o que viu!"

Ela me encarou com aqueles belos olhos, escolheu as palavras e, "Bem, hoje em dia os homens em geral não ligam muito para essas coisas, então não sei se você ficará apenas triste ou se sentirá... desapontado. A sua mão, ao que me parece, diz que sua alma gêmea nunca chegará a você e vice e versa."

Ora, mas o que ela sabia sobre os homens? Há inúmeros tipos de homens assim como há inúmeros tipos de mulheres. Obviamente eu fiquei extremamente desapontado. Mas apenas respirei fundo e como se não tivesse ligado apenas perguntei: "tem mais alguma coisa?"

"Sim tem, mas eu sugiro que você visite uma cartomante e dê este recado a ela após a consulta." Era um papel amarelado que ela deixou sobre a mesa para que eu pegasse sem nenhum contato físico. "Sugiro também que você não o leia. Mas é você quem decide o que fazer da vida e não posso reprimi-lo por isso."

"Alguém para me indicar?"

"Se eu sugerir alguém você pode pensar que eu esteja tramando alguma coisa com meus amigos. Mas você encontrará alguém de primeira linha, posso garantir."

Perguntei o quanto eu devia e ela simplesmente falou ,"Vá, não precisa se preocupar com isso." Ao meu ver, ela simplesmente não queria ter nenhum contato comigo.

Não li o papel e, no mesmo dia, fui para uma cartomante. Até hoje não sei dizer se ela era "de primeira linha" porque devido à pressa, escolhera qualquer uma próxima à região.

A sala não era muito diferente da quiromante. Mas ao invés de velas havia muitos incensos que deixava o quarto com um cheiro desagradável.

"Você não veio até mim porque quis." Puxa vida, diferente da quiromante, ela era bem mais velha. Seu cabelo era despenteado e de tom grisalho, não usava maquiagem e usava um vestido verde de um tom muito bonito. Seus olhos eram castanhos e sua aparência física demonstrava que, no passado, era tão bonita quanto a outra. Por um tempo imaginei a minha quiromante naquele estado...

"Er... Sim, eu vim ver se um outro método de prever o futuro baterá com o anterior"

"E é sobre qual assunto?"

Eu disse, blá blá blá ,"amor", e blá blá blá, "coisas ocultas da minha vida", e blá blá blá, "a quiromante não me mostrou", e blá blá blá.

"Tudo bem, agora escolha uma carta. Muitto bem, agora...", e por um tempo ficamos nesse jogo de escolher cartas e cortar o baralho. Ansioso, novamente. Era fascinado por esses assuntos e queria ver se...

"Bom, já tenho o resultado." Com uma cara de desaprovação, a cartomante repetiu a mesma frase de antes "seu amor verdadeiro nunca chegará", mas dessa vez eu não sei se eu fiquei feliz pelo resultado ter batido ou se...

"Como assim? O amor verdadeiro se cria, nutre e cuida! Ele não está predestinado a ning...!"

"Olha aqui! ", ela me interrompeu bruscamente, " Não tenho culpa se a previsão não te agradou! Se veio aqui só para ouvir coisas legais, está no lugar errado! Mulheres com sabedoria de revistinhas semanais sobre cartomancia tem em qualquer esquina! Se você não quer acreditar, não acredite! Mas não me venha com papinho de rejeição. Você escolheu as cartas que quis e eu li o que você me mostrou!"

"Desculpa, eu só me exaltei... Tem mais alguma coisa que eu possa saber?"

"Sinto muito, mas eu não sei o que essa quiromante viu."

"Então, olha, a quiromante mandou que você lesse isso."

Após leitura seus olhos pareciam que iam saltar. Nesse momento, a velha levantou-se, abriu uma gaveta de seu armário e de lá tirou um pote da mesma textura e cor que a da quiromante. Além de ter passado em suas mãos, passou também em cada uma de suas cartas cuidadosamente e me devolveu o recado, deixando-o em cima da mesa.

"É para não pegar suas energias. Aliás, antes que você vá embora, quero saber mais uma coisa", passamos mais algum tempo brincando de cortar baralho e escolher cartas e ao fim ela respirou fundo e falou: "O que acabei de ler não é nada agradável, você quer saber?", há, mas que pergunta, " Então vou dizer de uma forma menos desagradável. Ame tudo o que tem enquanto tem."

"Vou perder tudo o que tenho?", ela me olhou com aprovação.

Antes de sair apavorado e assustado, perguntei quanto devia para ela, "Vindo de você, eu não quero nada", grossa.

Queria logo voltar para casa. "Que medo", pensei. Não podia perder tudo em um piscar de olhos, demorei tanto tempo para construir cada pecinha da minha vida...

O ponto de ônibus estava do outro lado da rua e enquanto esperava o farol do vermelho interminável abrir, lembrei do recado da quiromante. O papel estava no meu bolso, e quando o retirei percebi que o farol finalmente abrira. Enquanto andava para o outro lado da rua, meus olhos, como o da cartomante, arregalaram-se.

Senti-me imóvel e quando voltei para mim, percebi um grande caminhão vindo em minha direção. A buzina era altíssima, mas a desatenção tinha me deixado surdo. Apenas um segundo. Aquilo foi o suficiente para entender tudo. Os cremes, a previsão da quiromante, a da cartomante, e o recado escrito "Cuidado, a morte caminha com ele."

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Escrito por: Elizabeth.

Correções ortográficas! Avise!!!
Aliás, é a primeira vez que uso aspas para conversas, não sei se usei de forma adequada ;~;
Logo, se perceber qualquer coisa...
Mais uma vez uma hisória que para mim tinha um final clichê *blé* mas um laço muito legal!
Espero que gostem

5 comentários:

  1. Gostei do texto, da forma como os fatos se encaixaram... lembrou um conto do Machadão :3

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  2. Hiii, gosteeei x3 E também me encantei com o jeito que foi escrito!!

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  3. OMG Sayuri!!!
    Um texto meu conseguiu alcançar a sombra de Machadão ;~;
    Que belíssima comparação, isso me alegra ^^

    Yes Jess!!!
    Depois de SÉCULOS sem escrever, alguma coisa boa tinha que aparecer XD~

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  4. Poxa, Eliza... faz tempo que você não posta nada... Preciso da minha dose dos seus posts DD: *viciada*

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  5. Eeeeliiiiiizaaaaa~~~ Se eu fizer um voto de silêncio de novo, você posta um texto novo? XDDD

    Buáaa, que saudades dos seus textos!! Estás sem tempo? ;-;

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