O menino

Ele era um bom menino.

Ele sabia falar as coisas certas nas horas certas, era honesto, trabalhava de maneira impecável, era gentil, paciente, fazia piadas, gostava de escrever cartas e contar as estrelas. Via a vida de uma forma leve e as coisas ao seu redor não o atingiam. Cantarolava poemas de cor, citava escritores e associava cenas do seu dia com os filmes que via.

Mas esse não era ele.

Sempre ouvia quando precisava de ajuda, era preocupado, gostava de contar histórias que aconteciam no seu dia, dividia gostos, fazia carinhos, sorria em momentos difíceis, mandava flores, levava ela até em casa e fazia surpresas. Quando chorava consolava e quando brigavam sabia ouvir. Mudava o caminho de volta para casa só para comprar aquele bolo que ela queria, apreciava os momentos que ficavam em silêncio no metrô e tinha gosto por fazer coisas que resultassem no sorriso dela.

Mas esse também não era ele.

Até que um dia ele acordou estranho. Talvez fosse o sol que tinha resolvido passar pela janela e parado em seu olho ou o cachorro que lambeu o lado direito do rosto e não o esquerdo como de costume. Não sabia dizer. Só estava diferente mesmo sabendo que nada havia mudado.

Não é como se ele não se importasse mais. Não é como se ele não gostasse mais. Talvez estivesse cansado de vestir a máscara ou desacostumado de ser quem realmente é e estava com saudades de si. Quem sabe não é nada disso e ele só estava entrando na rotina.

Contudo ele começou a parar. Primeiro parou com as surpresas, depois vieram menos flores, então as histórias eram cada vez mais curtas, os sorrisos mais raros, as conversas mais rápidas, ajudava menos, perguntava menos, dividia menos, cantava menos, consolava menos, ouvia menos e aos poucos tudo que gostava muito foi ficando menos, menos e menos.

- Você mudou - ela dizia, mas não era verdade. Ele sempre foi ele, era ela que nunca havia visto.

E em um dia quando foram ao parque, o céu estava azul, o vento refrescava e o sol estava quente. Ele segurava a mão dela mas não sentia calor. Quando notou, resolveu olhar nos olhos dela e já não havia o brilho que sempre via. Não ligava, não estava triste e nem sentia-se vazio. Ele só não sentia mais, não sentia o que achava ser eterno, não sentia o que achava que sentia. Então ele soltou a mão e percebeu que dentro de si havia uma leve inquietação. Queria caminhar só, viu tudo por outro ângulo, estava bem e sabia que não estava sendo justo.

- Eu... Eu não posso mais ficar com você. - as palavras saiam sem pensar nas consequências.

- Eu sei. Eu já sabia mas não queria te perder.

- Você me fez muito feliz, obrigado.

- Fica, por favor.

- Mas eu não posso mais ficar com você.

- Eu te faço mal?

- Não.

- Eu canso você?

- Não.

- Eu atrapalho a sua vida? Te confundo? Ou você tem outra pessoa?

- Não, não e também não.

- Então por quê?

- Porque eu não posso segurar alguém que não vou conseguir retribuir tudo que ela vai me oferecer.

- Mas você é o suficiente para mim.

- E eu já sou o suficiente para mim também.

- Você me faz muito feliz.

- Eu sei, mas estaria mentindo e só ia te machucar cada vez mais.

- Eu preciso de você.

- Mas eu não posso mais ficar com você... Desculpa.

Ele era um bom menino que gostava dela e ela gostava muito dele. Mas eles tiveram que se abraçar pela última vez porque ele estava perdido e agora que se encontrou estava pronto para ser quem sempre foi.

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