Pendrive

Hoje lembrei do dia que levei o pendrive para você. E eu fiz questão de levar o pendrive para você. Faz tanto tempo que nem deve se lembrar... Era um dia em que nós tínhamos marcado um treino para a apresentação do fim de ano e nele havia a música com os tons que você deveria cantar. Eu queria tanto que você tivesse ido se encontrar com a gente... Perguntaram quem levaria o arquivo e eu logo disse que faria sem problemas, iria só pois precisava falar com você.

Estava em um dos andares mais altos do prédio e tive que subir muitos, muitos degraus para te encontrar. O andar era o décimo e o elevador era apenas para funcionários. Conversamos. Pensei friamente em resolver todas as questões dentro de mim, queria não deixar pontas soltas, queria resolver logo, não deixar pendências. Ia aproveitar qualquer tipo brecha. Nosso tempo era cada vez mais curto. Você estava se preparando para estudar fora e sabia que conseguiria porque confiava muito em você, porque você é uma das pessoas mais inteligentes que conheci.

Felizmente ou não, nossa conversa se distanciou. Estávamos na biblioteca e você, que é muito gentil, explicou como ela funcionava e os livros especiais que só tinham nela para poder estudar. Gostava quando me ensinava coisas novas, gostava como sabia de tanta coisa e gostava que você falava dessas coisas para mim. Você estava cheio de tarefas para resolver e mesmo assim, reservou aqueles minutinhos para me explicar algumas coisas nada a ver. Fiquei tão feliz...

Até que o tempo acabou. Nos despedimos. Nunca falei as coisas que estavam entaladas em mim.

Decidi que voltaria de metrô. Estava cheio então acabei ficando de pé encostada ao lado da porta. Não sei ao certo mas me pareceu que ele quebrou em alguma estação. A volta demorou tanto... Meus braços estavam cruzados e confesso que não estava tão desapontada de ter falhado com meus planos, já tinha falhado tantas outras vezes, esta só seria mais uma delas. Contudo, o que parecia uma volta comum virou uma lembrança intrigante, do nada comecei a chorar.

Naquele instante eu não consegui entender. Meu peito não doía, minha cara não estava fechada e eu nem estava tão desapontada comigo. As lágrimas pareciam um bando de cervos gordos livres que corriam pela face sem ter um rumo além do chão. Não tive controle nenhum, só rolaram, rolaram e rolaram até cansarem de sair. Isso nunca se repetiu e, assim como parece, foi muito estranho. Tudo bem que havia uma certa chateação de continuar carregando qualquer tipo de carinho por você e que seu silêncio de certa forma me frustrava, além é claro da aflição de você estar partindo mas esses não eram os motivos para aquilo.

Hoje eu acredito ter compreendido o que aconteceu. Nesses últimos dias, achei que desta vez tudo ia ser diferente. Achei que uma força mágica ia conspirar ao meu favor e que tudo seria muito mais fácil do que foi uma vez. Acreditei que se fizesse as coisas acontecerem elas aconteceriam. Deixei que meu coração falasse muito mais, fiquei muito mais vulnerável e resolvi fazer as coisas do meu jeito. Claro que tinha medo de reviver o que passei com você mas desta vez parecia que valia a pena.

É certo que tive infinitos ganhos, entretanto, mais uma vez vivi os "será" e os "e se" com retornos pouco claros e muito confusos. Contentei-me de novo com pouco que me davam e de novo sabia que não se importavam comigo como eu me importava. Consenti, novamente, frustrações que me quebravam, abracei utopias, maquiei ansiedades e curei feridas com desculpas não verbalizadas. Estes e muitos outros medos que tive foram concretizados como se tivesse pedido para acontecer.

Ai, como machuca... Como machuca assistir a mesma história sem poder fazer nada além de esperar acabar...

O dia do pendrive agora fica muito claro. Eu, ali, em um vagão que apesar de lotado parecia silencioso, havia compreendido com o meu coração que tudo que vivi foi majoritariamente comigo. Eu, que achei que um dia poderia sentir sua companhia, estava enganada pois não importava o quanto eu gostasse de você, permanecia-me só mesmo ao seu lado vendo livros em prateleiras altas. Eu e você fazia muito sentido no campo das ideias mas na vida real era como se não nos conhecíamos porque você falava e eu ouvia, nunca o contrário. Você não me transbordava, você só fazia me sentir vazia e isso matou parte de mim.

Na época não entendi como era possível chorar sem estar com o peito doendo, sem estar sentindo realmente mal, agora sei que podemos chorar quando parte de nós se vai para não voltar. Não se sente nada porque não tem mais nada ali, chora-se pelo luto. É claro que hoje eu me senti muito triste e chorei de coração mas como acabei fugindo para um lugar muito longe de dentro de mim, acabei reencontrando você e, puxa, como fazia tempo que não te via. Hoje lembrei quando levei o pendrive e também lembrei de você porque esse dia é a chave para entender que há pessoas que não ficarão do nosso lado mesmo a gente querendo já você... Você é a chave para entender que vai ficar tudo bem de novo, um dia.

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